Dos sete pecados capitais, certamente a inveja é um dos mais presentes no
mundo corporativo. Em maior ou menor intensidade, de maneira explícita ou
camuflada, a inveja permeia grande parte das relações de trabalho.
Uma das constantes razões dessa presença é a ênfase que a maioria das empresas
costuma dar ao componente competitivo entre seus colaboradores, disseminando-o
como algo "saudável". Aliás, esta é uma das muitas contradições desse universo
capaz de fazer a alegria e o desespero de uma boa parcela de profissionais: de
um lado, o discurso organizacional fala e cobra muito do seu pessoal a chamada
integração ou espírito de equipe.
Ao mesmo tempo, são praticadas políticas internas de premiação para "o melhor
vendedor do mês", a "melhor equipe do ano em qualidade", o "setor campeão do
semestre em redução de custos".- como se essas vitórias pudessem ser obtidas
individual ou setorialmente, sem a contribuição - direta ou indireta - de todos
os demais profissionais e departamentos da empresa.
O maior artilheiro de um time de futebol só faz gol por causa de uma sucessão
anterior de passes entre seus companheiros de equipe, até que a bola chegue aos
seus pés. O mérito do gol, portanto, não pode ser creditado apenas a ele. Como
geralmente é isso que acontece ("o artilheiro do campeonato"), não raro, na área
esportiva, assistimos à derrocada de grandes equipes justamente pela
disseminação da inveja entre seus jogadores, porque algum deles á alçado à
posição de "estrela do time" e, a partir daí, de "salvador da pátria".
A inveja nascida dessa premiação discriminatória pode manter-se num patamar
inofensivo - em um nível de "inveja muda", caracterizada por ressentimentos,
desmotivação e torcida íntima pelo fracasso do "herói" - ou pode chegar ao grau
de boicote. Muitas empresas, analogamente, também criam suas "estrelas" ou
"salvadores da pátria" - e isso obviamente nada agrega de positivo ao clima
interno, justo agora que, mais do que nunca, fala-se tanto de gestão
participativa, conjunto, cooperação e espírito de equipe...
É evidente que em toda empresa que estimula a competição interna - por mais
saudável que se pretenda que seja esse processo -, precisa considerar que sua
pirâmide organizacional, que representa seus níveis hierárquicos, tem, como em
todo triângulo, muito menos espaço no seu topo que na sua base - o que significa
que nem todos aqueles que lutam para chegar no alto encontrarão espaço para si -
privilégio reservado para uns poucos, ainda mais agora que predomina no mercado
de trabalho a tendência de enxugamento e redução das estruturas e dos níveis de
comando.
Nessa disputa pelo chamado "reconhecimento profissional", alguns indivíduos se
destacam - e sempre que um desses destaques é anunciado, corre-se o risco de
plantar a semente da inveja naqueles que foram preteridos. É comum que os
preteridos sintam-se "roubados" ou rejeitados pelos dirigentes que detêm o poder
de decisão - tal como, na infância, o irmão caçula sente inveja dos
"privilégios" do primogênito. A inveja nas organizações é, de certa forma, uma
reminiscência dessa "perda", dessa suposta preferência parental por outro.
Ao mesmo tempo, é inevitável na inveja o sentimento de várias outras perdas: a
de tempo existencial, por exemplo, ("ainda não foi desta vez...." / "quantos
anos serão necessários para que reconheçam meu talento?"). A sensação de perda
de poder é também comum na inveja: "ele (o preferido) tem mais prestigio /
influência que eu" ou "esse incompetente vai agora mandar em mim".
Com muita freqüência o invejoso organizacional - quase sempre um "carreirista"
não ético ou um inseguro, com baixa auto-estima e sem tônus vital para ser
competitivo - sofre de uma distorção da sua capacidade de (auto) percepção. Não
é raro que ele se veja rancorosamente mais competente e qualificado que aquele
que foi promovido. E, para alimentar essa "miopia", costuma utilizar
justificativas que nem sempre são vistas pela empresa como de mais relevância:
"há 30 anos que dou meu sangue por essa empresa!" ou "quantas vezes já deixei
minha família para vir trabalhar em feriados e fins de semana" ou ainda "há dez
anos não tiro férias e ninguém reconhece isso!".
Na verdade, tomado pela inveja, ele deixa de enxergar outros aspectos que, do
ponto de vista da empresa, são mais importantes, como os componentes políticos,
comerciais, mercadológicos, financeiros, estratégicos e outros. Bem a propósito,
vale lembrar que a origem latina da palavra "inveja" é "invidere", que quer
dizer "não ver". E já que estou falando de significados, não custa destacar
também que, em português, segundo o "Aurélio", inveja é o "desgosto ou pesar
pelo bem ou felicidade de outrem; desejo violento de possuir o bem alheio". Ou
seja: até por definição, a inveja é uns sentimentos dos mais negativos da
natureza humana e, no contexto deste artigo, também no mundo corporativo. Isso
exclui a perspectiva, defendida por alguns autores, de que a inveja "pode ser
saudável".
O mercado de trabalho conseguiu dar uma conotação positiva à palavra "ambição",
ao identificar assim aquela forte disposição do profissional de lutar pela sua
evolução e realização. No entanto, parece-me mais difícil fazer a mesma
transmutação para a palavra "inveja", uma vez que ela traz implícito um desejo
revanchista de destruição ou de fracasso do invejado. A decisão de investir
maior esforço em seu autodesenvolvimento, que pode ser desencadeada num
profissional a partir de um episódio de "inveja", não acolhe essa terminologia.
Talvez frustração, decepção ou insatisfação - nunca inveja É a chamada "volta
por cima", só conseguida por aqueles profissionais autoconfiantes, que têm
consciência do seu talento e que sabem que, melhor que alimentar ressentimentos,
é "arregaçar as mangas" e partir para luta da própria superação.
Enfim, por todas essas considerações, é fundamental para qualquer organização o
conhecimento de que, ao deixar de lado a visão de grupo e alimentar
conscientemente ou não uma política de competição, mérito, promoção ou
reconhecimento individual, esta será passível de despertar sentimentos de inveja
entre seus colaboradores e poderá estimular a prática da relação "ganha / perde"
ou "perde / ganha", cujo resultado final, a médio ou longo prazo, conduz ao
"perde/perde", tanto em relação aos profissionais entre si como destes para a
empresa e vice-versa. Certamente este é um jogo que, assim como na guerra, não
tem vencedores.