A VEZ DA ÉTICA NAS EMPRESAS
No rastro das novidades introduzidas no ambiente de trabalho pela
globalização, o Brasil acolhe agora uma preocupação que já está avançada pelo
mundo afora. É a ética nas empresas. Na escala de valores que começa a se
disseminar, contratar um parente incompetente, discriminar um colega por razões
raciais ou passar uma cantada na secretária são comportamentos equiparados à
poluição ambiental, à prática da propaganda enganosa, à espionagem industrial ou
ao suborno para vencer uma licitação. "Zelar pelas boas relações com a
coletividade, clientes e fornecedores é uma questão de estratégia de
sobrevivência dos negócios e de bom senso" (segundo o professor da Universidade
de São Paulo, Robert Henry Srour, presidente da Companhia Paulista de Obras e
Serviços e autor do livro Ética Empresarial). Afinal, com a sociedade civil
ativa e vigilante as empresas têm de se cuidar, ainda que meramente por
oportunismo ou esperteza.
Um exemplo da tendência vem embalado em letrinhas: o certificado SA 8000,
sigla de Social Accountability 8000, norma internacional que estabelece padrões
de responsabilidade social para as companhias. Nos anos 90 predominou a
preocupação com a qualidade de produtos e serviços, a partir da disseminação das
normas ISO 9000, atualizadas depois com a série ISO 14000, que atesta o cuidado
com a ecologia.
O SA 8000 destina-se àquelas firmas candidatas que se submetem a um
treinamento e auditoria independente, comprovando que seguem as determinações da
norma. Uma delas é não contratar mão-de-obra infantil. Outra exige que se paguem
salários equivalentes a homens e mulheres. Também são requeridas garantias à
segurança, à saúde e à integridade física e psicológica dos funcionários. O
professor Robert Seour acredita que vá firmar-se nos próximos anos a convicção
entre os consumidores de rejeitar produtos de empresas que não se adequarem nos
cânones prescritos.
No Brasil, a Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) fez um estudo
pioneiro em vinte empresas do setor industrial. Conduzida pela professora Maria
Cecília de Arruda, coordenadora do centro de estudos de ética nas organizações,
da FGV, a pesquisa teve a parceria do Ethics Resource Center, de Washington,
Estados Unidos. De acordo com o relatório, o principal conflito ético atualmente
é decorrente do que a autora classifica como "assédio profissional", ou seja, a
pressão que as corporações exercem sobre seus empregados. Acuados, eles acabam
tolerando excessos dos chefes, escondendo erros e até aceitando atitudes
não-éticas, tudo por medo de ficar sem emprego ou promoção. "As pessoas perdem a
personalidade e fecham os olhos para pequenos deslizes porque têm filhos e
família pra sustentar", argumenta Maria Cecília.
O estudo mostrou também que as empresas consideradas mais éticas possuem, em
comum, normas claras de conduta, de relacionamento pessoal e de comportamento
profissional expressa em manuais. Primeira colocada no ranking da FGV, filial
brasileira da Hewlett Packard, que produz de calculadoras a computadores de
última geração, criou até um diploma individual, que atesta a idoneidade de cada
pessoa que lá trabalha. Para isso, a companhia distribuiu um questionário
composto de dilemas morais e está incentivando seus funcionários a respondê-lo.
Quem conhece bem os princípios e escolhe as alternativas corretas recebe a
Certificação de Conduta nos Negócios.
Para estimular empresários e altos executivos a investir em padrões de
conduta, o Instituto Ethos lançou um manual ético, que tem como função
estabelecer parâmetros e diminuir o clima de incerteza entre os funcionários.
Ao deixar clara as regras e criar limites morais, ele passa a servir como
instrumento de suporte para punir trangressões e desvios de comportamento,
buscando tornar efetivos os princípios estipulados. "Quando não existe um código
claro, pressupõe-se que não exista também um padrão ético. Isso deixa os
funcionários "a mercê dos valores pessoais e do exemplo alheio", explica Paulo
Vanca, sócio da consultoria PriceWaterhouseCoopers. De acordo com ele, para ter
credibilidade o manual precisa ser seguido à risca, sempre e por todos (um
código atual deve abordar temas como os descritos nos "Dez Mandamentos").
Os Dez Mandamentos da Ética |
1 - Não divulgarás propaganda enganosa
2 - Não farás espionagem industrial
3 - Não assediarás sexualmente
4 - Não apadrinharás
5 - Tratarás os funcionários com respeito
6 - Honrar clientes e fornecedores
7 - Não subornarás
8 - Não poluirás
9 - Não fraudarás
10 - Não discriminarás |
OS DILEMAS DA ÉTICA
Poucos assuntos têm sido tão discutidos nas empresas do mundo inteiro quanto
a ética corporativa. Desde a série de escândalos desencadeada pelas fraudes
contábeis que abalaram a economia americana no ano de 2002 e reverteram o
processo de duas décadas de glorificação dos executivos, um clamor moralizante
atingiu os negócios. Nesse contexto, a ética definida como transparência nas
relações e preocupação com o impacto de suas atividades na sociedade vem sendo
vista como uma espécie de requisito para a sobrevivência das empresas: ninguém
quer ter o destino de uma Enron ou de uma WorldCom, empurradas para a
concordata, ou, o que é pior, de uma Athur Andersen, verrida do mapa. Mais do
que criar um fenômeno, no entanto, os escândalos aceleraram um processo que
vinha se desenvolvendo nos últimos cinco a dez anos, como mostram os exemplos a
seguir:
- Criada em 1992, com cerca de 50 empresas, a organização americana
Business for Social Responsability (Negócios pela Responsabilidade Social)
reúne hoje mais de 1.400 filiadas, que faturam em conjunto mais de 2
trilhões de dólares por ano. No Brasil, o Instituto Ethos tinha apenas 11
sócios ao ser fundado, em 1998. Esse número ultrapassou a casa dos 750,
formado por empresas que respondem por 30% do PIB do país. A Ethics Officer
Association (associação que busca orientar o trabalho dos diretores de ética
nas empresas), fundada em 1992 com 12 membros, tem hoje mais de 890 sócios
(cerca de 150 se filiaram depois dos escândalos, quando também a freqüência
às reuniões aumentou 50%, segundo seu diretor, Ed Petry).
- Em 2000, foi criada a Social Accountability International (SAI), para
implementar o selo SA 8000, que certifica a conduta ética das empresas em
relação aos trabalhadores e o respeito aos direitos humanos, nos moldes das
ISO 9000 e ISO 14000. Outra organização, a Accountability, com sede no Reino
Unido, lançou seu certificado de comportamento ético, o AA 1000 (a primeira
empresa brasileira a credenciar-se foi a Souza Cruz, subsidiária da British
American Tobacco, BAT).
- Um estudo de 1999 envolvendo 124 empresas de 22 países, produzido pela
Conference Board, uma organização não-lucrativa que promove estudos sobre
gestão, concluiu que 78% dos conselhos de administração das companhias
americanas estavam disseminando padrões éticos em 1991 eram 41%, e em 1987
apenas 21%.
- Grandes consultorias de gestão, como a Arthur D. Little, já oferecem a
seus clientes "planos de estratégia ética". O escritório paulista Manhães
Moreira Advogados Associados dá, desde 1998, consultoria também sobre "ética
empresarial". Hoje em dia, esse serviço é responsável por 10% das horas
técnincas cobradas dos clientes. "Daqui a pouco já vai compensar ter gente
só para isso", diz o advogado Joaquim Manhães Moreira. Esses exemplos são
testemunho irrefutável de que o discurso ético se desenvolveu muito na
última década. Isso é muito bom. Já a prática... Nos Estados Unidos, quase
um em cada seus diretores financeiros afirma ter sido pressionado a
falsificar números da empresa nos últimos cinco anos seguindo pesquisa
publicada pela CFO Magazine, publicação dirigida a executivos
financeiros. Quase um terço deles afirmou que sua empresa camuflava dívidas
para causar boa impressão na bolsa de valores, geralmente tem truques
similares aos utilizados pela Enron. Outro estudo, feito em 1998 pelo
Institute of Business Ethics, da Grã-Bretanha, com 178 empresas, concluiu
que muitas companhias tinham códigos de ética para inglês ver: 30% não
possuiam nenhum mecanismo que possibilitasse denúncias de atos antiéticos,
30% não davam cópia do código de conduta a todos os funcionários e só um
terço divulgava seus códigos publicamente. Não há estudos desse tipo no
Brasil, mas a observação permite supor que as empresas daqui têm
comportamento similar.
Por que se percebe tanta diferença entre o discurso e a prática quando se
trata de ética? Uma primeira explicação é que o discurso, por habitar o mundo
das idéias, é mais fácil de mudar do que a prática, sujeita a atritos e
obstáculos. Por essa óptica, as empresas estariam no caminho certo, com
velocidades variáveis, outra explicação, mais pessimista, é que o discurso está
dissociado da prática. Nos últimos anos, esse discurso revestiu-se de uma
argumentação que, grosso modo, diz o seguinte: se uma empresa for ética, seus
funcionários ficarão contentes em dar seu sangue por ela, os fornecedores se
transformarão em parceiros estratégicos, os consumidores darão a preferência a
seus produtos e serviços (e até aceitarão pagar mais caro por eles) e a
comunidade que a abriga será mais compreensiva diante de eventuais deslizes.
Numa palavra, o que a pregação ética promete às empresas é o paraíso em versão
adaptada ao ideal de negócios.
De fato, vários estudos sugerem que o compromisso ético traz resultados
financeiros positivos. Para ficar apenas num exemplo: uma pesquisa com 300
empresas feita pela Universidade Católica De Paul, de Chicago, em 1999, concluiu
que as que tinham compromisso ético proporcionavam aos acionistas um retorno
duas vezes superior aos das demais. Detalhe: esse compromisso ético está
geralmente vinculado a ações sociais que beneficiem os vários públicos afetados
pela empresa. Mas, como assinala o pesquisador Cláudio Pinheiro Machado Filho em
sua tese de doutorado sobre responsabilidade social, pela Universidade de São
Paulo, essa noção deve ser avaliada com muita cautela. Por dois motivos:
primeiro, pela dificuldade metodológica para qualificar as ações de
responsabilidade social. Segundo, porque é difícil estabelecer uma relação de
causa e efeito entre postura ética e lucratividade. "Pode-se considerar que as
empresas em condições de empreender atividades sociais são justamente as que já
apresentam indicadores de desempenho mais robustos", escreveu Machado Filho.
ESFORÇO DE PROPAGANDA
"A evolução no discurso é um problema", diz a psicóloga Rosa Maria Fisher,
professora da Faculdade de Economia e Administração da USP. "Se de um lado,
propiciou que as empresas acordassem, de outro lado criou uma cortina de fumaça
que dificulta enxergar a prática real da responsabilidade." Segundo Cecília
Arruda, coordenadora do Centro de Estudos de Ética nas Organizações, da Fundação
Getúlio Vargas de São Paulo, existe hoje um discurso que impinge a ética como
mercadoria. "Ações de responsabilidade social vêm sendo usadas como esforço de
propaganda, e as verbas normalmente saem do departamento de marketing", diz
Cecília. O problema não está, é claro, nas ações sociais; a não ser quando são
feitas sem a explícita anuência dos acionistas (o que configura fazer o bem com
o dinheiro alheio). O problema surge quando se confundem essas ações, geralmente
externas e marginais ao negócio, com o que é o cerne da atitude ética: o modo de
enfrentar os dilemas cotidianos.
Sentindo a crescente pressão da sociedade, a maioria das empresas quer hoje
passar uma imagem de "boa cidadã corporativa". Há uma maneira fácil e uma
maneira difícil de fazer isso. Infelizmente, a correta não é fácil. "Muita gente
liga para cá e pergunta quanto custa um código de ética", diz Cecília. "Como se
fosse só pagar." Em 2000, ela conduziu uma pesquisa sobre clima ético em 20
empresas, a nota média foi 5, numa escala de zero a 7. As principais falhas eram
na comunicação interna, na existência de favoritismo e exigir dos funcionários
um comportamento correto quando a direção não dá exemplo. Das 20 empresas,
apenas três aceitaram repetir a pesquisa no ano seguinte. "Normalmente, as
companhias pedem treinamento ético para a média gerência", diz Cecília. "Quando
nós começamos a falar, eles respondem: "Mas isso não é para a gente, fala com o
pessoal lá de cima".
Conflitos éticos é o que não falta no mundo dos negócios. Os objetivos da
empresa de maximizar seu lucro colidem com os objetivos dos funcionários de
obter a maior remuneração possível. O desejo dos fabricantes de cobrar margens
confortáveis choca-se com o desejo dos consumidores de ter produtos bons e
baratos. A vontade de um gerente de contratar um amigo ou conhecido opõe-se à
necessidade da empresa de ter o melhor candidato possível à exigência da
sociedade e de dar oportunidades iguais a todos.
BENEFÍCIOS INTANGÍVEIS, CUSTOS IMEDIATOS
Decisões éticas são, por princípio, dilemas. No mundo dos
negócios, eles são complicados pelo fato de que os benefícios da conduta ética
são em geral intagíveis, e os custos imediatos. "Sem o comportamento ético desse
retorno financeiro, todos já teriam adotado", afirma Décio Zylbersztajn, chefe
do programa de agribusiness da USP, que estuda as relações éticas no mercado. Na
estrada da sede da Globocabo, em São Paulo, havia um código de valores éticos
preso na parede, com a assinatura de todos os funcionários. "Em termos de ética,
eles são bem legais", diz Cecília da FGV. Mas Globocabo, que hoje se chama NET,
perdeu clientes e fechou 2002 com prejuízo de 1,12 bilhão de reais com as
operações de TV por assinatura. Nos Estados Unidos, Dennis Bakke, CEO da
companhia de energia AES, dava autonomia a seus empregados para tomar grandes
decisões e não recebeu salário durante anos, apenas ações de ações. As ações
caíram 90% sob o peso das dívidas da AES, e os investidores começaram a
considerar seu estilo de gestão idealista demais. Isso não quer dizer, como se
acreditou durante muito tempo, que ética não combine com sucesso nos negócios,
mas sim que ela impõe restrições. "A empresa só vai ter comportamento ético se o
grupo controlador aceitar que seus valores, baseados em honestidade, verdade e
justiça, podem levar a algumas perdas", diz o advogado Manhães Moreira. A
multinacional americana Cummins, fabricante de motores à diesel, deixou de
vender suas peças diretamente ao varejo, na Colômbia, perdendo perto de 4
milhões de dólares de faturamento. "Estamos vendendo apenas por meio de nosso
distribuidor, porque suspeitamos que o conceito estava sendo usado para lavagem
de dinheiro do tráfico de drogas", diz Ricardo Chuahy, presidente da Cummins
para a América Latina e o Caribe. Não se trata apenas de obedecer à lei, mas de
respeitar os valores que a própria convicção dos fundadores impõe. A empresa
paulista Argos, que integra cadeias de suprimentos para exportar peças de
tecnologia, decidiu não realizar conotações para clientes que atuem na produção
com fins militares.
Os dilemas estão presentes em todo tipo de organização. No
Brasil, pequenas empresas são tentadas a burlar a enorme carga de impostos a que
estão submetidas. Pagar impostos, o básico dos básicos no comportamento ético,
torna-se às vezes uma considerável desvantagem competitiva por causa do ambiente
de sonegação. Grandes corporações enfrentam outros tipos de dilema. "Na década
de 80, a Shell não aderiu ao boicote contra o apartheid, na África do Sul", diz
o consultor americano Peter Schwartz, antigo responsável pelo departamento de
planejamento de cenários da multinacional anglo-holandesa, que esteve no Brasil
no ano passado. "Em nossa opinião, era mais ético ficar e confrontar o regime do
que sair do país, mas a maioria das pessoas não concordava com essa filosofia".
Em 1986, a Shell acabou com a segregação racial em minas e em seus alojamentos
o que era contra a lei.
O então presidente sul-africano, Pik Botha, ameaçou prender o
diretor local da Shell. "Eu escrevia a carta que o então presidente da Shell,
Lodewijk van Wachem, dirigiu ao presidente Botha, dizendo: "Se você fizer isso,
vamos fechar seu país. Não vamos aceitar essas leis imorais, lutaremos contra
você. E nós podemos vencer."
Alguns anos depois, a Shell esteve envolvida em outra polêmica
num país africano. A companhia era acusada de apoiar a ditadura militar na
Nigéria, e sofreu pesadas críticas em 1995, quando o escritor oposicionista Ken
SaroWiwa e oito partidários, que lutavam contra a presença da multinacional no
país, foram condenados à morte e executados. paradoxalmente, o envolvimento da
Shell na Nigéria obedecia à sua concepção de ética. Segundo Schwartz, a primeira
Declaração de Princípios Gerais de Negócios estabeleceu a não-interferência em
assuntos políticos dos países em que atuava. Como pano de fundo, havia a
preocupação da companhia com as críticas contra as multinacionais que
sustentavam e derrubavam governos na América Central. "A Shell achava que seu
código era um modelo de comportamento ético, apenas para descobrir, do jeito
mais duro possível, que as exigências da sociedade tinham mudado", diz Schwartz.
A Shell acabou, então, refazendo seu código, em 1998, cancelou 69 contratos com
empresas que não aderiram às suas políticas éticas, ambientais, de saúde e
segurança. Mas continua na Nigéria, embora longe da região onde ocorreram os
protestos de 1995.
Outro dilema: Bill Ford, bisneto de Henry Ford e atual CEO e
chairman da Ford Motor Company, é um ambientalista de carteirinha. Como
poderá manter-se fiel a suas idéias e, ao mesmo tempo, garantir a remuneração
dos acionistas? Para Schwartz, Bill Ford não consegue. "Como sua empresa tem
lucro? Vendendo o automóvel mais poluidor, o utilitário Explorer", diz. "É a
maior fonte de lucro da empresa. O que ele deve fazer? Destruir a companhia,
mudar o produto, mudar a ética?"
NÃO EXISTEM SANTOS
Um dos mais famosos casos de responsabilidade social uma espécie de
benchmark quando se fala de postura ética foi protagonizado pela Johnson &
Johnson em 1982. Na época, seu principal produto era o Tylenol, líder de vendas
com 37% do mercado de analgésicos nos Estados Unidos. Os desafios éticos
começaram quando seis pessoas apareceram mortas após ingestão dos comprimidos na
região de Chicago. A empresa paralisou imediatamente a produção e a divulgação
do Tylenol, ao mesmo tempo que fez um recall no país inteiro, retirando 31
milhões de frascos das prateleiras, ao custo de 100 milhões de dólares. As
investigações concluíram que o envenenamento tinha sido obra de alguém que
injetara cianeto nos remédios e os colocara de volta nas prateleiras das
farmácias. Em poucas semanas o Tylenol voltou ao mercado, e um ano depois
recuperou a liderança, mas com 24% das vendas. Diretores da J&J revelaram depois
que a decisão do recall foi tomada com base em seu código de ética, conhecido
internamente como "Nosso Credo". Mas, como para provar que não existem empresas
santificadas, em 1995 a J&J deu sua pisada de bola, numa proporção que Enron
nenhum botaria defeito: a empresa simplesmente triturou pilhas de documentos
relacionados a uma investigação federal que apurava se a companhia estava
promovendo ilegalmente o remédio Retin-A, indicado no tratamento de acne, para
que fosse usado como removedor de rugas.
A ética costuma lidar com questões difíceis. Por exemplo, a indústria de
tabaco. Os ativistas antitabagismo do mundo inteiro não perdoam as grandes
empresas do ramo por terem negado, até um passado recente (1998), as evidências
dos malefícios do cigarro que há mais de 40 anos já eram reconhecidos pela
comunidade científica. "Nossa postura, hoje, é reconhecer que o cigarro traz
riscos de saúde sérios para determinados indivíduos em relação a determinadas
doenças", diz José Roberto Cosmo, gerente de responsabilidade social corporativa
da Souza Cruz, no Rio de Janeiro. Tendo de lidar com uma legislação cada vez
mais dura em relação a seu produto, Souza Cruz optou por cumprir rigorosamente
as exigências. "Temos o programa Cuidar, que já educou 90.000 alunos do ensino
médio fundamental e médio sobre comportamentos de riscos, e temos uma parceria
com a Fundação Getúlio Vargas para sensibilizar os varejistas a não vender
produtos de risco a menores de 18 anos", diz Cosmo.
Embora tenhamos a tentação de associar a ética a convicções perenes, o fato é
que os valores da sociedade mudam. Já foi considerado ético ter escravos. Já foi
considerado ético revistar funcionárias na saída do trabalho para verificar se
roubavam peças. "Na década de 70, haviam empresas em São Bernardo que mantinham
funcionários indisciplinados em cárcere privado", diz Rosa, da USP. "Na década
de 80, se você achasse uma mosca morta em seu iogurte, simplesmente jogava o
produto fora. O lado bom do discurso ético é a apropriação da exigência de
transparência e correção". Outra vantagem é apontada por John Mein, diretor
executivo do Instituto Ethos: "Às vezes, as empresas se comportam de certo modo
por motivos mercadológicos. Mas, como é uma comunidade de pessoas, os valores
podem se internalizar e mobilizar na direção da ética".
Na CPFL, o senso ético foi despertado no fim de 1999, quando eletricistas da
empresa podaram árvores da avenida Orozimbo Maia, em Campinas, provocando
protestos enérgicos dos moradores. "A poda buliu com a marca da empresa, com 90
anos de história", diz Augusto Rodrigues, diretor de comunicação da CPFL.
"Descobrimos que nossos processos estavam inadequados e percebemos que tínhamos
de treinar eletricistas e gerentes para entender o impacto de suas ações na
comunidade".
No Unibanco, que instalou um comitê de ética recentemente, o resultado é a
proteção da imagem. No ramo financeiro, nenhum cuidado é considerado exagero. "A
instalação da minha área teve um custo muito alto", diz Márcia Klinke, diretora
adjunta de Legal Compliance do Unibanco, que lida com risco reputacional. Mas
vale a pena? "Lógico que vale. Estamos protegendo um bem caríssimo à empresa,
que é a sua imagem. Estamos no mercado à 80 anos, e queremos permanecer", afirma
Márcia. Na empresa de engenharia Método, o código de ética foi estendido a toda
a cadeia de valor. O documento foi negociado e assinado por todos os
fornecedores. "A expectativa é que a gente comece a trabalhar sob a óptica da
confiança", diz Hugo Marques da Rosa, presidente da Método. "Isso elimina muitos
custos, porque os sistemas de controle são caros".
Em termos macroeconômicos, essa talvez seja a grande vantagem do
comportamento ético. Como explicou o economista Ronald Coase, prêmio Nobel de
1991, o funcionamento dos mercados envolve custos de transação. Quando os
agentes vivem num ambiente ético, a transparência diminui a ineficiência da
falta de informações, e a confiança diminui os custos de controle.
Se dá resultado, então por que não são todos éticos, o tempo todo? Uma
possível explicação é dada pela Teoria dos Jogos (veja quadro abaixo): a melhor
situação para a coletividade é que todos os jogadores sejam éticos, mas o maior
lucro individual é obtido quando os outros crêem que somos responsáveis, ao
mesmo tempo que agimos com oportunismo. Esse modelo matemático se reflete na
realidade? Em termos. Há vaiáveis como a apontada por Mein, do Instituto Ethos:
o comportamento ético contamina. Também há variáveis não possíveis de medição,
citadas por vários empresários entrevistados, como o orgulho de andar de cabeça
erguida. A resposta mais honesta que se pode dar é: em alguns casos, ser ético
traz compensação financeira, em outros casos não. Mas você não tem como saber
antes de tentar.
MEDO OU CONFIANÇA?
Ética e Teoria dos Jogos |
O que é mais forte, o medo ou a confiança? Imagine que
você foi preso, junto com um colega. A polícia lhe oferece o seguinte
acordo: se você denunciar seu colega, fica livre, e ele pega cinco anos
de cadeia. O mesmo acordo é oferecido a ele. Se ambos se denunciarem,
vocês dividem a culpa e cada um pega três anos. você sabe que, se nenhum
dos dois abrir o bico, só há provas para prender cada um por um ano. O
que você faz? A decisão mais racional, para evitar pegar cinco anos de
cadeia é trair seu colega. mas, como ele também pensará assim, vocês
dois acabarão pegando três anos de cadeia cada um.
Ética tem a ver com sustentar compromisso, não trair a confiança dos
demais. Mas, como mostra o exemplo acima, um clássico da Teoria dos
Jogos (popularizada com o filme |
Uma Mente Brilhante, em que o ator
Russell Crowe interpreta o matemático americano John Nash), ao buscar
cada um o melhor pra si, todos perdem. Em vez de pegar dois anos de
cadeia, no total, você e seu colega ficarão seis anos presos. Um impasse
parecido acaba sendo vivido na vida corporativa, em várias negociações.
A tentação de minimizar a perda individual acaba levando a maior perda
coletiva.
Esse impasse só é rompido quando se consegue construir um nível de
confiança que supere o medo de arriscar. Quando os mesmos negociadores
interagem repetidas vezes, há um "capital reputacional", acumulado pelo
somatório de atitudes anteriores. Ou seja, a ética tem de ser construída
coletivamente. |